Tia Vera. 2008.

Tia Vera. 2008.

Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo

A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes

Flores
Flores

As flores de plástico não morrem

(Flores, de Titãs)

Este é um texto sobre a minha tia Vera. Este é um texto para aconchegar a saudade, celebrar a vida e dar este difícil abraço na morte. Na verdade, este é um texto do ponto de vista de uma sobrinha que amava muito a sua tia e com certeza a conhecia pouco, perto de tudo que ela foi, dos seus múltiplos papéis e híbridas versões. Tia Vera era casada com o irmão da minha mãe, o Tio Carlos. Dona de uma casa cheia de crochês e aconchegos, capaz de acolher qualquer pessoa que sentasse em uma de suas poltronas cuidadosamente reformadas, tomando um bom e açucarado chá preto.

Se fecho os olhos, consigo escutar o que a Tia Vera sabia fazer melhor: conversar e dar risada. Naquela voz meio rouca, naquele tom meio debochado, ela era uma excelente contadora de histórias e conseguia dar um ar descontraído a quase qualquer uma de suas narrativas. Tia Vera sofria mas, sobretudo, ria e compartilhava causos com a mesma facilidiade com a qual dividia um chimarrão. Com ela a conversa ia longe, falávamos sobre qualquer assunto. Ela me disse umas tantas vezes “eu sou velha, mas minha cabeça acompanhou o mundo, sou moderna pra minha idade, Ana Claudia”. E era mesmo. Tivemos altos papos existenciais, entre um telefonema e almoço de domingo e outro. E eu podia passar horas escutando ela falar, contando coisas de épocas em que eu nem existia, apresentando as visões da vida do seu universo particular. Sim, confesso, um dos meus grandes prazeres era escutar os bafinhos e bafões da família a partir do olhar e indiscutível talento para contar histórias da Tia Vera. Se isso é fofocar, fofocamos muito.

Tia Vera, poderosíssima no conjunto habitacional Vitória Régia. 2008.

Em 2008, eu e Augusto, meu companheiro, entrevistamos a tia Vera para o nosso trabalho de conclusão de curso da universidade, um projeto chamado “Interiores – espaços e artefatos cotidianos”. Ela nos recebeu com disponibilidade e paciência. Cedeu muito do seu tempo e parte de suas histórias. Tia Vera nos apresentou uma visão clara e precisa de cada escolha na organização da sua casa, nada escapava do seu sistema de cuidados, afetos e emoções. “Meu mundo está aqui”, ela dizia.

Naquela época, na casa da tia Vera haviam quatro televisões para evitar os conflitos de interesse de domingo (“é muito ruim ter confusão dentro de casa, eu faço de tudo para apaziguar”). Tinha uma cômoda e três cadeiras em estilo antigo retiradas da rua, devidamente lixadas e recuperadas (“não posso ver no lixo uma coisa útil, gosto muito de pegar. A pessoa jogou e eu vejo que dá pra aproveitar, eu trago. Mas sempre eu reformo”). Tinha o talento da Tia Vera para restauros e intervenções (“eu gosto muito de lixar, de envernizar, de trocar de cor”) e o seu gosto pelo trabalho manual (“eu sou do tempo que esfrega roupa na mão, bota na grama um pouquinho pra quarar. Gosto muito de lavar roupa, tira o meu stress esfregar roupa”). Tia Vera evitava desperdícios (“a minha máquina é instalada, mas a mangueira dela está no tanque para lavar as calçadas, acho um pecado lavar uma calçada, um carro, com uma água tratada que amanhã pode não ter”) e tinha uma capacidade enorme de se adaptar (“quando eu tinha marmitex eu tinha mesa até nos quartos. era gostoso, sabia?”) ao ponto de esquentar ferro de passar no fogão em tempos difíceis (“meu ferro não tinha mais conserto, eu não tinha dinheiro pra comprar um novo, meu filho trabalha muito com camisa. Eu cortei o rabicho e esquentava no fogão à gás”).

Tia Vera. 2008.

Tia Vera fazendo uma das coisas que melhor sabia fazer: contar histórias. 2008.

Tia Vera durante muito tempo preparou cerca de 50 refeições por dia na sua casa, motivo pelo qual ela tinha duas cozinhas, a segunda em uma edícula, nos fundos do terreno, para atender a clientela. “Eu faço qualquer coisa na minha casa. Eu tô costurando, cozinhando, cuidando da minha roupa, cuidando da minha família, cuidando da minha casa. Eu acho que eu nasci pra dona de casa.” Anos depois muitas coisas na casa mudaram, o serviço de marmita foi encerrado, veio a televisão de tela plana e um sofá ocupou o lugar das três cadeiras antigas.

Entrevistando a Tia Vera, entendi que ela era uma mulher de muitos saberes e fazeres, de uma compreensão e consciência elevada sobre sua própria vida e sobre o papel que desempenhava na vida dos outros. Muita gente não reconheceria o trabalho duro que ela realizava diária e sistematicamente, dando suporte para quem ali também morasse, mas ela sabia exatamente o que estava fazendo. Desejei naquela época entrevistar mais gente do mundo pra quem sabe descobrir o poder mágico de cada pessoa. O poder mágico da Tia Vera era usar a sua casa para cuidar das pessoas, apesar dos conflitos e contradições das relações e da vida.

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Tia Vera e eu. 2008.

Eu talvez não tenha nascido pra dona de casa, mas a Tia Vera certamente está comigo cada vez que preciso quarar as roupas encardidas demais, quando estou amassando massa de biscoito, preparando um chá pra visita, acolchoando a casa com paninhos e tapetinhos (que já julguei muito desnecessários e hoje não vivo sem), cozinhando arroz – uma das comidas que ela mais gostava e das minhas preferidas também. No nosso último encontro há algumas semanas, o qual eu jamais imaginei que seria o último, tive o privilégio de preparar o arroz, que ela tanto gostava. Arroz branco, com cebola, alho, cenoura em cubos, açafrão e salsinha, Tia Vera adorava salsinha, “coloco em tudo”, me disse. E ensinou que é preciso deixar o arroz descansar por uns 2 minutos na panela tampada depois de desligar o fogo.

Tia Vera faleceu com 63 anos, repentinamente, há uma semana. Ela odiava hospitais. Em menos de uma semana, deixou o hospital, a gente e o mundo todo. Uma morte desanunciada. Pensar na Tia Vera agora é como acordar de um sonho bom e nítido, mas impossível de tocar novamente. E como isso é estranho. Ela talvez diria “ah, pára, Ana Claudia! Agora porque morri, virei santa?” e daria uma imensa e debochada gargalhada. Pois é, tia. Você não era santa. Mas só tenho boas lembranças de você. Privilégio de sobrinha? Eu não sei. Mas sei que você foi uma mulher forte em uma vida que nunca deu moleza e esta é a versão que quero pintar sobre você. Já sinto uma enorme saudade do seu jeito criativo de narrativizar a vida, reinventar a memória e interpretar o cotidiano.

No dia em que tia Vera faleceu fui à sua casa, visitar o seu mundo material, há poucas horas deixado pra trás por sua soberana rainha. Tudo lá marca a sua majestosa presença. Percorrer todos os cômodos e olhar para as suas coisas, tia, foi uma oportunidade de olhar mais uma vez pra você. As flores de plástico enfeitando mesas e balcões, o conjunto de copos de vidro fosco com detalhes botânicos, as marcas de verniz escorrido nas cadeiras há pouco envernizadas, os bibelôs de cachorrinhos em cima do rack, o ursinho sentado em um pequena cadeira de arame na cômoda do quarto, o porquinho de porcelana na penteadeira, o barzinho de bebidas acomodado no canto da sala, as frutas de cera, os ímãs de geladeira, as muitas fotos dos filhos e do neto que ela tanto amava, o plástico estampado com bolinhas brancas protegendo a televisão, os desenhos de passarinhos colados aleatoriamente na parede, a chaleira de alumínio, as toalhinhas de mesa, a cortina florida feita sob medida para um dos armários e a capa da máquina de lavar roupa. Não é fácil cuidar e amar as pessoas o tempo todo, aliás, é impossível, mas a Tia Vera encarou este ofício com coragem, energia e senso de humor. Tia Vera cuidava de tudo e da vida de todo mundo que passava pela vida dela. Cozinhava, lavava, costurava, lixava, envernizava, trocava as coisas de lugar, cobria a casa com cores, tecidos e flores, como quem renova a si mesma. No seu velório estava com uma camisa de estampa de tigresa que tenho certeza que aprovaria.

Flores de plástico não morrem e o Tio Carlos que me desculpe, mas roubei uma florzinha de poliéster de um dos muitos arranjos espalhados pela casa. Está agora na minha estante, no meu sistema de saudade material.

A morte é este momento de confronto com a impermanência da vida, esta transitoriedade que compartilhamos com a humanidade inteira. É o momento para se conectar a tantas pessoas que na morte também se despediram de seres queridos. É o momento para se encontrar com a vida que seguirá, com as memórias e com a gente mesma, inevitavelmente transformada por esta experiência. Tia Vera, atravesse para a outra margem do rio tranquila. Estamos todos e todas na fila do fim da vida. A arte de perder não é nenhum mistério. Por aqui, por enquanto, guardaremos suas risadas, sua voz poderosa e inconfundível, as boas lembranças que você construiu em nossos corações, agora partidos pela sua inesperada partida, mas infinitamente gratos por tê-la conhecido.

Para assistir a entrevista com a tia Vera: https://vimeo.com/7128120

 

 

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