A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

Elizabeth Bishop; A arte de perder. Tradução de Paulo Henriques Brito.

 

Esta história é sobre três vestidos, todos da minha mãe (e um pouco meus também): a Rosa.

Um deles é o vestido do casamento dela com o meu pai, uma relação que não deu nem totalmente certo nem errado (afinal, eu e meu irmão estamos aqui e acho que somos pessoas bem legais!), mas alguns conflitos perduram até hoje. E olha que o casamento foi há mais de 30 anos.

O tal vestido é este que aparece em algumas fotos que eram clássicas em álbuns de casamentos da época:

Casamento e casa mobiliada. Um sonho realizado em julho de 1979!

O outro vestido é de um rosa intenso, cheio de babados. Esta fotografia do casamento do meu tio Carlos e tia Vera.

Casamento do tio Carlos e tia Vera. Minha mãe em destaque usando seu vestido rosa-babado. Outubro de 1978.

O terceiro vestido, todo azul purpurinado e também com babados, não sei ao certo de onde veio. Nunca vi minha mãe o usando e não temos fotografias antigas dele. Mas pra mim, sempre pareceu uma fantasia muito engraçadinha.

Quando meus pais se separaram em 1996, minha mãe foi morar em Brasília e estes vestidos ficaram comigo na casa do meu pai. Ensacados e embolados em algum canto isolado do guarda-roupa. Pois é, acontece mesmo de alguns pedaços de uma separação sobrarem para as crianças. Mas gostei de ficar com estes pedaços! Na verdade, os vestidos foram muito úteis pra mim.

As minhas inseparáveis amigas daquela época eram a Karin, Ana Luíza e Fernanda. Embora entre nós, nem todas as relações fossem de “melhores amigas”, pra mim elas eram um refúgio naqueles tempos de dores e alegrias adolescentes.

E aí, em um dia de 1998, o professor de música passou uma tarefa: fazer um video clip musical. Como eu e as minhas amigas gostávamos de se passar por bobas, escolhemos uma música da turma da Mônica (e já éramos grandinhas pra esse tipo de música, tínhamos uns 12 anos): “Eu amo ela”, do Chico Bento. Para nosso desejado figurino, os vestidos caíram como uma luva! Continham toda breguice necessária. E apesar das dificuldades de produzir um vídeo clip (na época não tínhamos como editar, então era tudo na mão mesmo, parando e avançando o CD e a filmadora), foi divertidíssimo. Passamos um final de semana inteiro trabalhando neste projeto. Foi um dos trabalhos mais marcantes do qual participei na escola e que até hoje me faz rir muito. Aquelas coisas que a gente sente ao mesmo tempo vergonha e orgulho de ter feito.

Há alguns meses foi finalmente possível disponibilizar uma versão remasterizada dessa “pérola”:

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Ana, Karin e Fernanda em fotos promocionais para o lançamento do clip “Eu amo ela” em 1998. Fonte: Arquivo pessoal.

Com essas amigas eu também me encontrava pra fazer maquiagens extravagantes e colocar os vestidos bregas da minha mãe (desculpa mãe, sei que deve ter sido moda em algum momento da história). E aí tirávamos muitas fotos (na medida das possibilidades analógicas da época), sempre nos divertindo muito com aquela brincadeira.

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Fernanda, Karin e Ana em uma noite criativa de 1998. Fonte: Arquivo pessoal.

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Karin e Ana em uma tarde qualquer de 1997. Fonte: Arquivo pessoal.

O vestido de casamento foi parar em uma festinha de Halloween. Entre diabinhas e bruxinhas, a Milena, uma também querida amiga daquela época, usou o vestido de casamento para compor uma morta-viva bem interessante.

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Halloween de 1998. Milena, em um modelito morta-viva de arrasar. Fonte: Arquivo pessoal da Ana Luíza.

 

E esse tempo passou. Logo a Karin mudou de escola, vieram vestibular, namorados, graduação, desilusões, descobertas, afastamentos e reaproximações, enfim, crescemos. Dentre tantas coisas, eu me tornei professora, a Fernanda advogada, a Ana Luíza médica e a Karin designer e mamãe da linda Sofia. Depois de um breve e intenso encontro durante aqueles anos incríveis, seguimos caminhos bem distintos. Não nos vemos com a mesma frequência daquela época de muitas dúvidas, dramas e inseguranças (ó, a adolescência!), mas vamos compartilhar essas histórias para sempre.

E assim, os vestidos voltaram a ficar ensacados e embolados em algum canto do guarda-roupa.

Isso até há algumas semanas. Uma pessoa, a Claudia, procurava no Freecycle (uma rede de oferta e procura de objetos para doação) vestidos antigos para montar o figurino de uma peça de teatro. Lembrei dos vestidos da minha mãe, ensacados e há tanto tempo sem uso. E por um momento eu hesitei em doá-los. Mas não é um lindo fim (ou continuidade?) pro figurino de um casamento que trouxe tantas complicações para as principais partes envolvidas? Eu acho que sim. Chega de ficarem trancafiados, depois de tantos usos e um longo período de solidão, os vestidos foram finalmente viver novas histórias.

Depois do “adeus”, fiquei pensando. Gostaria que tivéssemos mais facilidade em aceitar mudanças. Fazer como os vestidos, assumir outros personagens e perceber que não somos somente parte de uma história de casamento e separação, que esta não é a única identidade e relação possível para nossas vidas. Que quem sabe um dia poderemos achar graça do que aconteceu, que o tempo passa e que as mudanças sempre vem, querendo ou não. Que novos contextos e cenários podem trazer desprendimentos necessários. Deixar ir embora, enxergar coisas pelo que são, mas ainda mais pelo que podem vir a ser: pela sua potencialidade.

Quando lembro dos vestidos, lembro da relação conturbada entre meus pais. Mas também lembro do quanto eu e minhas amigas nos divertimos com eles. E que agora estão circulando por aí, vestindo rainhas, guerreiras, fantasmas e o que a imaginação de alguém quiser. Diria até que foram meus vestidos preferidos. E justamente por isso não poderia deixá-los aprisionados e mortos no meu guarda-roupa.

Minha mãe foi morar em outra cidade com meu irmão há um ano. Acho que esta mudança de “palco” é um bom sinal.

 Obs.: Demorou um pouco para localizar estas imagens e enquanto isso recebi um e-mail da Claudia, a moça que levou os vestidos embora, contando que não foram usados para a peça de teatro para a qual ela buscava figurino, mas já fazem parte do acervo do teatro do Centro Juvenil de Artes Plásticas – CJAP, que oferta cursos regulares de teatro para crianças e jovens de 6 até 17 anos.

 

 

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