E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?

Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?

Pablo Neruda, no Livro das Perguntas, XLV.

Memória é – muitas vezes – ficção. Mas ficção também tem efeitos reais. Ilusões não deixam de manifestar verdades, nem que em forma de projeções enevoadas pelo tempo e pelos desejos. E volta e meia são as fotografias que apoiam a nossa capacidade inventiva, pessoal ou coletiva.

Esta fotografia foi tirada em 1993, eu tinha 7 anos, meu irmão 9 e foi a primeira vez que encontramos o mar.

Nosso primeiro encontro com o mar. Xangrilá/ PR, 1993.

Nosso primeiro encontro com o mar. Xangrilá/ PR, 1993.

O Dudu nasceu com insuficiência renal e fez o primeiro transplante aos 5 anos. Por conta de tantos remédios ele sempre foi mais baixinho que eu, apesar de mais velho. O Dudu demorou pra freqüentar a escola, não podia praticar atividades físicas que colocassem em risco o precioso rim na sua barriga. Sempre me considerei a “irmã mais velha” da história. Também por conta dos remédios o Dudu nunca pôde tomar muito sol, comer muito sal, além de uma série de outros cuidados, o que até então comprometia nosso contato com o litoral.

Bem, conhecer o mar era uma urgência minha, tinha muitos amigos na escola que iam pra praia nas férias e minha curiosidade diante de tantos relatos entusiasmados era enorme.

Desse dia eu lembro especialmente de correr junto com o Dudu na beira do mar, numa altura bem rasinha, da qual podíamos ver as conchinhas e as pedrinhas que cutucavam nossos pés e sentir as ondas que batiam de leve nos tornozelos, enquanto corríamos encantados naquele lugar praticamente deserto. Corríamos até uma distância considerada segura por nossos pais e voltávamos. Fomos pra ir e voltar no mesmo dia e o tempo passou muito rápido, assim como parece acontecer nos primeiros momentos de todo tipo de descoberta. Lembro de ter coletado algumas conchinhas e pedrinhas que guardei por muito tempo como um pequeno tesouro.

Esta é a única foto que existe desse dia, embora duvide muito que minha mãe tenha tirado somente esta. Mas as outras se perderam e na minha memória esta sempre foi a única que existiu. Um sinal de que realmente não tínhamos contato com esse universo de mar e praia é que nem sunga e maiô estávamos usando! Pois é, talvez uma das últimas chances que tive de estar em uma praia com tão pouca roupa e tamanha liberdade.

Os remédios fortes também trouxeram outra conseqüência pra vida do Dudu, ele ficou surdo. Por isso suponho que nesta hora ele estava deslumbrado com a paisagem, não podia ouvir o “olha o passarinho – diga X” da minha mãe. Eu estou nitidamente posando para a fotografia, não sei porquê, talvez achei que deveria conter a emoção do momento, mas o olhar do Dudu, incapaz de ser desviado por qualquer tipo de som, parece encantado, possivelmente por algum elemento que ele encontrou nesta paisagem nova pra nós dois.

Neste dia mal sabíamos as ondas turbulentas que os próximos anos nos guardavam. Entre maremotos e naufrágios, estamos vivos. E gosto de pensar que desse jeito, sorrindo, de mãos dadas, olhando o mar. Nos sentindo pequenos demais para a vida, que é tão grande.

Agora, se perguntar pra minha mãe ou meu pai sobre este e os dias que seguiram, certamente serão outras histórias, em outros barcos, conduzidos por outros ventos.

Este artigo possui 10 comentários

  1. Helen

    Que lindo texto tive a graça de ler, nesta tarde curitibana, fim de setembro.

    “Entre maremotos e naufrágios, estamos vivos. E gosto de pensar que desse jeito, sorrindo, de mãos dadas, olhando o mar. Nos sentindo pequenos demais para a vida, que é tão grande.”

    Você é uma pessoa muito especial!

  2. Pingback: Histórias de três vestidos | ana frança

Deixe uma resposta