Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu

[…]

Deixe que o tempo cure
Deixei que alma
Tenha a mesma idade que a idade do céu…

Jorge Drexler, A Idade do Céu

Parque de diversões na cidade abandonada Pripryat, na Ucrânia. Foto: www.pripyat.com / Divulgação

Parque de diversões na cidade abandonada Prypriat, na Ucrânia. Foto: www.pripyat.com / Divulgação

A impermanência da vida frequentemente nos chacoalha. Mas é também um grande alívio saber que tudo passa, que poucas são as coisas que merecem tanto da nossa consideração. E pela mesma razão é tão importante como nos movemos pelo mundo e nos relacionamos com as pessoas.

Se vivemos com o pensamento de que cada dia é o último, isso nos ajuda a apreciar cada momento. Isso não é ser fatalista ou sorumbático. Se fosse nosso último dia na terra, teríamos cuidado com nosso tempo. Não criaríamos mais problemas, tentaríamos resolver que já temos. Seríamos bacanas com as pessoas. Se não iremos mais vê-las, por que não ser bacanas com elas? Não seríamos bondosos com a nossa família, com os nossos filhos, com os nossos parceiros e com as pessoas que estaríamos deixando, se pensássemos que nunca mais as veríamos outra vez? Por que quem sabe? Podemos não ver. Certo dia, não veremos. Por que não estar preparado? (No coração da vida: sabedoria e compaixão para o cotidiano, de Jetsunma Tenzin Palmo)

Nas últimas semanas uma aluna minha foi atropelada por um ônibus em um grave acidente. Um amigo teve todos seus equipamentos de trabalho roubados. O gatinho de uma querida amiga morreu de repente. Quase nunca estamos preparados para experiências assim. Lembretes de que a vida é curta e nada é para sempre.

Sempre que sinto o planeta pesado demais, conforta-me lembrar que se considerarmos toda história cósmica de 15 milhões de anos e a comprimirmos em um ano, a vida humana ocuparia apenas 10 horas. A nossa vida é um segundo. Ou menos.

Também tenho como um estranho conforto para os dias melancólicos um episódio da série “O mundo sem ninguém”, do History Channel.

A série mostra o que aconteceria com o planeta caso as pessoas desaparecessem. Uma ideia bem radical, já que parece que boa parte vive aqui como se fosse ficar pra sempre. “O mundo sem ninguém” explica como animais e plantas tomariam conta das cidades e nossas construções desmoronariam, algumas em mais, outras em menos tempo. Desapareceriam obras de arte, livros, documentos, objetos…nada ficaria pra contar história, até porque nenhuma pessoa estaria no planeta para acessar as mensagens da nossa vasta cultura material.

Em um dos episódios, conta-se sobre Pripyat, uma cidade ao norte da Ucrânia. Pripryat não é uma cidade qualquer. Considerada uma das cidades mais modernas da antiga URSS, foi criada especificamente para abrigar famílias de trabalhadores da Usina Nuclear de Chernobil, aonde em 1986 aconteceu o maior acidente nuclear da história. Foi por conta da radiação provocada pelo acidente que as quase 50 mil pessoas que moravam ali tiveram que deixar Pripyat para trás. Além da radiação tomar conta do ambiente e das construções, também contaminou móveis e objetos; assim muito foi deixado na cidade, vestígios de uma época e da humanidade que já esteve presente por ali.

Escorregador em forma de elefante. Foto: www.pripyat.com / Divulgação

Escorregador em forma de elefante. Foto: www.pripyat.com / Divulgação

Radiação nuclear é coisa de uma intensidade e tempo que não fazemos ideia, serão milênios para acabar, não se sabe ao certo. O narrador explica que depois do acidente, cientistas previram um futuro trágico pra natureza da região. Muitas árvores e animais morreram. Mas o que não se esperava é que a ausência de seres humanos ao longo de 20 anos compensasse o estrago inicial causado pela radiação.

Esta é a floresta vermelha, uma área assustadoramente danificada pela radiotividade liberada pela explosão de Chernobyl. Todas as árvores da região foram mortas pela radiação. A quantidade de radiação também era suficiente para matar todos os animais da região. Mas agora presenciamos a recuperação da natureza. Este é um exemplo de como os animais silvestres prosperaram, o que temos aqui é um chifre de cervo vermelho, certamente pertencia a um animal grande e saudável. Os cervos vermelhos são muito raros em outras áreas da região. A zona de Chernobyl é a única área aonde encontramos populações de cervos vermelhos. Também encontramos porcos do mato. As populações na região são de 10 a 15 vezes maiores do que nas outras. (fala do ecologista Ron Chesser, professor e pesquisador da Texas Tech University)

Foto: www.pripyat.com / Divulgação

Este sapato virou uma casinha de musgos. Foto: www.pripyat.com / Divulgação

Em seguida, vemos uma creche também próxima de Chernobyl, abandonada como todo o resto, mas habitada por pássaros e, ao que tudo indica, uma coruja que parece gostar da vista de uma das janelas. Um campo de futebol está voltando a ser o que era há mais de 100 anos, uma grande floresta. Triste ou transcendente?

Cresci em uma cidade parecia com esta. […] É um pouco triste observar este local e ver no que se transformou a cidade de Pripryat. Ninguém irá morar aqui novamente. Mas há um outro lado nesta história e é algo encorajador. Isto mostra que a natureza é muito mais forte do que imaginamos. Na ausência do homem, a natureza irá florescer, a vida continuará se perpetuando e seu legado continuará para sempre. Porque nós somos parte da natureza. E mesmo se nós desaparecermos, o legado da vida irá continuar.

Gosto de acreditar na possibilidade da convivência harmoniosa entre pessoas e o planeta. Mas gosto da visão do prof. Chesser. Se desaparecermos, a vida continua e faremos parte da terra, do vento ou das estrelas. A vida parece ser muito maior que nossa breve e humana experiência. É bom lembrar disso também.

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